Aqui é onde vou acumulando pedaços e peças de idéias. Idéias minhas, ou de outrxs, traduções. Sente-se, sinta-se em casa, comente, critique, discuta, reflita.

"Quanto dura o amor?"

Acabei de assistir "Quanto Dura o Amor" de Roberto Moreira.

A trama segue em torno de três personagens: Marina (Silvia Loureiro), Suzana (Maria Clara Spinelli) e Jay (Fábio Herford).

Marina, aspirante a atriz, se apaixona por uma cantora de boate noturna. Suzana, advogada, se apaixona por um advogado colega de escritório. Jay se apaixona por uma prostituta. São três histórias que se cruzam em um prédio na Avenida Paulista. É leve se comparado ao outro longa de Roberto Moreira, Contra todos, mas pesado para quem espera apenas uma bela história de amor.

Suzana guarda um segredo. Embora o diretor recomende que não o revelemos, ele é o motivo pelo qual me senti tentada a ir no cinema, e aqui revelo dado que os leitores deste texto se encaixam neste perfil. Suzana é uma mulher transexual. O filme é bastante delicado ao lidar com a questão. O momento em que isto se revela é uma das partes mais dramáticas do filme. Mas fiquei chocada com a reação de agumas pessoas do público no cinema, que reagiram com gargalhadas.

Maria Clara dá um show como atriz. Impossível não se emocionar com ela. Ela encarna Suzana por completo, e não é atoa que tenha recebido prêmios e elogios pela mídia especializada. Suzana é uma mulher forte, independente e franca.

O filme não pretende agradar. É cru. Não como gostaríamos que fossem nossas vidas, mas como elas são. É um filme para refletir.

 

Eu não sou minha cirurgia!

Por Boi Polloi

Traduzido por Aline Freitas

Esta é uma história sobre terminologia.

Transexual, transgênero, transgenderista, crossdresser... Às vezes eu acho que nós fazemos um belo serviço nos dividindo em sucessivamente pequenas e pequenas caixas. A única coisa que conseguimos fazer, colocando as pessoas em pequenas caixas é construir muros entre nós.

Porque precisamos destes muros? Porque sentimos esta necessidade perpétua de rotular nossa não-existência? Esta caixa é "correta" e aquela caixa é "errada". Qualquer caixa que não seja a minha caixa é automaticamente inválida. De dentro do meu armário, seu armário não existe.

Alguém além de mim consegue enchergar a total futilidade deste tipo de mentalidade?

Minha identidade de gênero não corresponde ao meu gênero biológico. Minha expressão de gênero não corresponde com meu gênero biológico. Isto me torna menos trans que, digamos, o FTM com masectomia que decide não fazer uma CRS completa porque os resultados são insatisfatórios? Isto me faz menos trans que a MTF pós-operada, com feminização facial e prótese mamária?

Eu não acho.

Eu recuso a permitir que a sociedade dite em qual caixa eu deva marcar meu lugar. Eu certamente não vou permitir que as comunidades trans ou LGB ditem isto a mim. Eu não sou minha cirurgia, e minha cirurgia (ou a falta de) não me faz a pessoa que eu sou. Meus genitais não fazem ou quebram minha identidade.

Se você não quer que eu julgue você, baseado no quanto sua calça Levi's ocupa de espaço, não me julgue baseado no que é ou não é meu. A sociedade diz que minha certidão de nascimento, minha carteira de motorista, meus documentos legais devem conter M ou F. Que tipo de pessoa seríamos se seguíssemos a vontade do governo como ratos?

Felizmente eu vou resistir à conformidade e expressar a Anarquia de Gênero. Queimar os armários, derrubar os muros, e deixar as caixas para a U-Haul[1], porque a isolação que estão pondo em si mesmos é auto-imposta. Quebre as algemas da conformidade de gênero e seja você mesmx uma mudança, independente da opinião das pessoas, olhares ou gestos. Mostre a eles alguns de seus próprios gestos coloridos.

[1] Fabricante de caminhões baú

http://boipolloi.blogspot.com/2009/07/i-am-not-my-surgery.html

Imagem: Blind - por Boi Polloi
http://spookeriffic.deviantart.com/art/Blind-80173508

 

Uma breve auto-biografia (parte 1)

Este é o primeiro artigo deste blogue que posso chamar de pessoal. Tenho receio de parecer clichê. Talvez não. Não espere que eu venha a contar aquelas histórias classicas da "pobre garota aprisionada num corpo masculino, sofrendo por toda a vida até que tudo muda e ela vive feliz para sempre." Eu pelo menos sou bem mais complexa que uma história fácil, com destino traçado, definido desde... a infância? não, ...o útero? não, desde a concepção?...

 

Tudo bem, desde criança me identifico com o feminino. Acho que não cabe ir mais longe que isto ou corro o risco de cair na minha própria interpretação, com a cabeça que tenho hoje, para decifrar-me num tempo onde não tinha 97% das vivências que tenho hoje.

 

Não, eu não tive um pai ausente, e mãe superprotetora. Não, eu não brincava de bonecas. Eu também não soltava pipas. Eu não jogava bola. Não, eu não era um garoto que sofria com outros garotos por ser diferente. Eu brincava de carrinho, skate, bicicleta. Havia um respeito por mim, era pequeno, aparência física frágil, mas acho que sabia como lidar com as pessoas. O silêncio e a solidão me acompanharam por toda a vida. Tive que aprender a ser só. Me lembro de muito chorar à noite, por ser só. Mas a solidão foi uma arma forte. Eu guardava tudo comigo. Como criança eu jamais saberia o que fazer com meus desejos. Eu adorava A Bolsa Amarela de Lygia Fagundes Telles. Era uma garota que tinha três vontades que guardava na velha bolsa amarela: a de ser um menino, a de crescer e a de ser uma escritora. Eu não tinha uma bolsa, mas tinha um universo interno só meu, onde eu guardava entre outras, a vontade de ser uma garota.

 

Eu tinha 15 anos, trocava correspondências com jovens ao redor do país e numa dessas fiquei sabendo de um festival anarco-punk em Mirassol, oeste paulista. Isso foi muito importante para mim, primeiro porque na época eu morava com meu pai, e tinha que suportar minha madrasta. Até hoje me sinto feliz por não mais estar passando por aquilo. Ficava pensando, até quando aquilo iria durar. Foi o maior inferno da minha vida. Então, eu fui pra Mirassol, e o meio anarco-punk do interior me transformou completamente, para toda a minha vida. Havia uma conotação política muito forte. O que se chamava de "a luta contra o machismo", implicava na explícita rejeição à divisão de gêneros, e uma ampla liberdade de manifestação de afeto entre pessoas do mesmo sexo. Os meninos se comprimentavam com beijos, usavam vestidos, meia-calças numa espécie de terrorismo de gênero. As meninas eram em menor número, mas começavam a aparecer, e a se organizar. Esta cena durou não mais que dois anos. Mas foi o suficiente para me marcar para sempre.

 

...continua

 Imagem: Elton Melo - Qual é o sexo dos anjos??? / Cemitério da Consolação/SP
http://www.flickr.com/photos/eltonmelo/143765157/

 

A nova musa do cinema nacional

Maria Clara Spinelli e Gustavo Machado em cena de "Quanto dura o amor?"

Sylvia Rivera: a heroína de Stonewall

Como parte das comemorações dos 40 anos de Stonewall, faço aqui uma homenagem a uma heroína. Sylvia Rivera é considerada a Rosa Parks do movimento trans moderno. Ativista do início até o fim da sua vida, passou por momentos difíceis, viveu pelas ruas, viciou-se em crack. Seus últimos anos foram os mais produtivos, envolvendo-se em diversas iniciativas políticas em favor de jovens trans e homossexuais moradores de rua. Sylvia se foi em 19 de Fevereiro de 2002.

Tocando em todas as bases

Kate Bornstein, Gender Outlow: On Men, on women and the rest of us
Tradução: Aline de Freitas

A maioria das pessoas definem um homem pela presença de um pênis ou alguma forma de pênis. Algumas definem uma mulher pela presença de uma vagina. Não é tão simples, apesar. Eu conheço várias mulheres em São Francisco que possuem pênis. Muitos homens maravilhosos na minha vida tinham vaginas. E há um bom número de pessoas cujos genitais são algo entre pênis e vaginas. O que elas são?

Quem não segue as normas de gênero continuará a ser "doente mental"?

Pessoas trans e todxs que não seguem as "normas" de gênero continuarão a ser consideradas doentes mentais no DSM-V

Em 1973, a homossexualidade foi removida como uma desordem do Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais, segunda edição (DSM-II) pela Associação Psiquiátrica Americana. Este foi o passo que reconheceu que indivíduos cujos interesses sexuais são direcionados primariamente para pessoas do mesmo sexo não são afetados com uma desordem psiquiátrica.

A realidade é um "continuum"

Os numerosos estudos de diferenças entre os sexos e o igualmente cômico gênero de produções teatrais "Marte/Vênus" são misteriosos e desafiadores. Certamente eles demonstram o incômodo ressurgimento do desenfreado obscurantismo e persistente relativismo que continua a confundir a ciência com crenças ainda bastante difundidas baseadas em religião, mitos e outras tradições. De fato, falar sobre gênero e estudar as diferenças entre homens e mulheres, é base da mais fundamental forma de sexismo da mesma maneira que os estudos das diferenças raciais refletem seu subjacente racismo fundamentado, dado que estes estudos negam que a natureza fundamentalmente é expressa em um "continuum", especialmente gênero, sexo e pigmentação. Sem dúvidas, isso se deve à natureza sexista da ciência exata que continua em grande medida mesmo hoje.

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