Sylvia Rivera: a heroína de Stonewall
Como parte das comemorações dos 40 anos de Stonewall, faço aqui uma homenagem a uma heroína. Sylvia Rivera é considerada a Rosa Parks do movimento trans moderno. Ativista do início até o fim da sua vida, passou por momentos difíceis, viveu pelas ruas, viciou-se em crack. Seus últimos anos foram os mais produtivos, envolvendo-se em diversas iniciativas políticas em favor de jovens trans e homossexuais moradores de rua. Sylvia se foi em 19 de Fevereiro de 2002.
O que segue é um depoimento dado em 27 de Junho de 1999 pela New York Times Magazine. O que mais me encanta neste depoimento de Sylvia é sobre seu relacionamento com Julia Murray, sua esposa até o fim da vida, quem proporcionou dias melhores e felizes nos últimos anos de Sylvia, cuja vida foi tão sofrida.

No dia 27 de Junho de 1969, uma drag-queen de 17 anos do Bronx, liderou os protestos na Revolta de Stonewall. Ela fala para David Isay sobre sua vida desde então. O que aconteceu comigo desde a revolta? Bem, eu me tornei uma drogada por muitos anos. E então eu me livrei das drogas e saí das ruas de novo. (Mesmo então eu estava trabalhando duro para o movimento.) Então eu me mudei para Westchester, e adquiri adoráveis empregos na área de alimentação. Meu amor Frank e eu compramos uma casa. Infelizmente entramos no crack e a perdemos. É assim que nos tornamos sem-teto.
Fomos morar em um porto em West Village. O primeiro inverno foi um dos piores com a neve e tudo, mas sobrevivemos. Eu era uma típica mãe para todas as crianças que viviam ali -- todo mundo vinha para Sylvia quando precisavam de conselhos e conforto. Imagino que isso se deu pelo fato de não terem uma mãe ou não terem nenhum amor quando criança e sempre ouvir que ninguém te quer. Quando eu vejo alguém só, e a pessoa está sofrendo e precisando de conforto, meu coração se abre. Eu não posso dizer "não" se precisam de uma pequena ajuda. Eu vivi no porto por um ano e meio.
Agora eu vivo em Transie House no Brooklyn. (Isto é uma "Casa de Trans") é uma casa para todas as pessoas trans, ou para qualquer um que tenha um problema. Todo mundo me chama de Ma -- Ma Sylvia. Nós ajudamos todo mundo que podemos e nos envolvemos em tudo o que pudermos: Matthew Shepard, Diallo, Louima. Nós fazemos almoço de vez em quando, mas o que você espera de um bando de senhoras trans? Minha futura esposa é Julia Murray. Antes de eu encontrá-la, ouvia falar sobre Julia. Julia era -- posso dizer isso? Julia se perdeu por um momento, O.K.? Assim como muitas pessoas trans o fazem. Nós todos nos confundimos, perdemos a cabeça, e terminamos em hospitais. Julia perdeu a cabeça. E quando eu estava me mudando para a Transie House, Julia tinha acabado de se mudar para lá. Nos tornamos muito boas amigas. O que eu acho lindo na Julia é que ela nunca gosta de dormir sozinha, assim ela sempre descia na sala de estar (que era meu quarto na Transie House) e dorme no tapete. E eu dizia para ela "deite na cama". Fizemos isso por muito tempo e passamos muito tempo juntas como amigas. Então um dia aconteceu, e passamos a nos amar desde então. Isso foi a quatro meses atrás. Estamos planejando nos casar na igreja no começo da primavera do próximo ano.
Eu nunca pensei que fosse entrar na situação de casar com alguém, mas estou muito feliz. Eu não planejo mudar de sexo já que minha parceira já mudou. Mas me sinto que pelo fato de nós duas sermos trans, nós nos entendemos que uma e outra passamos. Nós sempre estivemos com homens mas os homens que tivemos em nossas vidas não foram capazes de nos dar a sensibilidade que dividimos entre nós mesmas. Ela é uma pessoa que tornou minha vida diferente. Ela me ajudou -- Eu não estou mais usando drogas, não estou bebendo muitl. É que nos sentimos felizes juntas. E as pessoas precisam entender que: pessoas são pessoas. Apenas queremos ser nós mesmas. E ela é uma grande pessoa para mim. Quando eu era jovem, eu nunca pensei que fosse fazer parte da história gay -- Eu nunca pensei que fosse existir uma história gay. Assim me sinto muito orgulhosa pelos 30 anos de Stonewall. Você sabe o que foi mais lindo naquela noite? Ver irmãos e irmãs lutando juntos como um povo. Mas eu me deprimo quando chega essa época do ano: por 30 anos eu estive brigando e lutando e ainda me sinto rejeitada na comunidade gay.

Comentários
Puxa, lindo, lindo texto.
Puxa, lindo, lindo texto. Não conhecia essa entrevista e não sabia que sylvia rivera havia estado lá (ela eu já conhecia). Então, o blog voltou? ;)
Vou linkar lá no meu!
Beijo!
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