Uma breve auto-biografia (parte 1)

Este é o primeiro artigo deste blogue que posso chamar de pessoal. Tenho receio de parecer clichê. Talvez não. Não espere que eu venha a contar aquelas histórias classicas da "pobre garota aprisionada num corpo masculino, sofrendo por toda a vida até que tudo muda e ela vive feliz para sempre." Eu pelo menos sou bem mais complexa que uma história fácil, com destino traçado, definido desde... a infância? não, ...o útero? não, desde a concepção?...

 

Tudo bem, desde criança me identifico com o feminino. Acho que não cabe ir mais longe que isto ou corro o risco de cair na minha própria interpretação, com a cabeça que tenho hoje, para decifrar-me num tempo onde não tinha 97% das vivências que tenho hoje.

 

Não, eu não tive um pai ausente, e mãe superprotetora. Não, eu não brincava de bonecas. Eu também não soltava pipas. Eu não jogava bola. Não, eu não era um garoto que sofria com outros garotos por ser diferente. Eu brincava de carrinho, skate, bicicleta. Havia um respeito por mim, era pequeno, aparência física frágil, mas acho que sabia como lidar com as pessoas. O silêncio e a solidão me acompanharam por toda a vida. Tive que aprender a ser só. Me lembro de muito chorar à noite, por ser só. Mas a solidão foi uma arma forte. Eu guardava tudo comigo. Como criança eu jamais saberia o que fazer com meus desejos. Eu adorava A Bolsa Amarela de Lygia Fagundes Telles. Era uma garota que tinha três vontades que guardava na velha bolsa amarela: a de ser um menino, a de crescer e a de ser uma escritora. Eu não tinha uma bolsa, mas tinha um universo interno só meu, onde eu guardava entre outras, a vontade de ser uma garota.

 

Eu tinha 15 anos, trocava correspondências com jovens ao redor do país e numa dessas fiquei sabendo de um festival anarco-punk em Mirassol, oeste paulista. Isso foi muito importante para mim, primeiro porque na época eu morava com meu pai, e tinha que suportar minha madrasta. Até hoje me sinto feliz por não mais estar passando por aquilo. Ficava pensando, até quando aquilo iria durar. Foi o maior inferno da minha vida. Então, eu fui pra Mirassol, e o meio anarco-punk do interior me transformou completamente, para toda a minha vida. Havia uma conotação política muito forte. O que se chamava de "a luta contra o machismo", implicava na explícita rejeição à divisão de gêneros, e uma ampla liberdade de manifestação de afeto entre pessoas do mesmo sexo. Os meninos se comprimentavam com beijos, usavam vestidos, meia-calças numa espécie de terrorismo de gênero. As meninas eram em menor número, mas começavam a aparecer, e a se organizar. Esta cena durou não mais que dois anos. Mas foi o suficiente para me marcar para sempre.

 

...continua

 Imagem: Elton Melo - Qual é o sexo dos anjos??? / Cemitério da Consolação/SP
http://www.flickr.com/photos/eltonmelo/143765157/

 

Comentários

Ah, olha que coincidência.

Ah, olha que coincidência. Também tenho 29 anos, e trabalho com informática (sou analista de redes...) aqui ro Rio... =)

Mais beijinhos,
Bia.

Lindo post, menina

Amei seu post, menina. Estava meio sumida, mas voltei... =)

Vou aguardar as próximas partes.

Beijinhos,

Bia.

próximos capítulos!

aguardo os próximos capítulos!

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